Os trabalhadores terceirizados da Rádio e da TV Justiça aprovaram, em assembleia realizada nesta quarta-feira (10 de junho de 2026), o início de uma greve geral a partir do próximo dia 15 de junho. A paralisação foi deflagrada após denúncias detalhadas pela jornalista Daniela Lima exporem o colapso financeiro enfrentado pela categoria. Os profissionais são contratados pela Fundação para o Desenvolvimento das Artes e da Comunicação (Fundac), entidade interposta que está em recuperação judicial, sob investigação e que gerencia o pessoal das emissoras oficiais ligadas ao Supremo Tribunal Federal (STF). O movimento expõe uma contradição moral intolerável: a mais alta corte do país, responsável por dar a palavra final sobre a legislação social e trabalhista, funciona diariamente servida por operários que estão com suas garantias fundamentais sumariamente confiscadas dentro do próprio palácio do Judiciário.

A LISTA COMPLETA DO CALOTE: OS DIREITOS QUE FORAM RETIRADOS DOS SERVIDORES A asfixia imposta pela Fundac aos funcionários da comunicação abrange praticamente toda a folha de benefícios contratuais. De acordo com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), a lista de direitos sonegados inclui o atraso crônico nos salários mensais, o não pagamento do 13º salário, a suspensão do auxílio-alimentação (vale-refeição) e o corte do vale-transporte. A maior afronta, classificada como uma vergonha sem precedentes nos bastidores de Brasília, é o calote continuado no recolhimento do FGTS, que já se estende por quase um ano. Em qualquer empresa privada do país, deixar trabalhadores sem o Fundo de Garantia por doze meses resultaria em severas punições fiscais e bloqueios judiciais imediatos. Sob o teto protetor do STF, contudo, a ilegalidade persistiu sem que os mecanismos de fiscalização interna da corte interrompessem o abuso a tempo.

A TRAJETÓRIA DA FUNDAC NAS EMISSORAS E A FUNÇÃO DA TV JUSTIÇA

  • A atuação da Fundac: A Fundação para o Desenvolvimento das Artes e da Comunicação gerencia a mão de obra da Rádio e da TV Justiça, acumulando polêmicas em sua gestão de contratos públicos e arrastando-se em um complexo processo de recuperação judicial.

  • Função Institucional da TV Justiça: No ar desde 2002, a emissora pública gerida pelo STF tem a missão de transmitir ao vivo os julgamentos plenários, as sessões das turmas e as atividades do Poder Judiciário, servindo como a vitrine de transparência dos ministros para a sociedade.

  • Profissionais afetados: A greve atinge diretamente jornalistas, produtores, editores de imagens, operadores técnicos e assistentes administrativos que garantem o sinal da corte para todo o Brasil.

A OMISSÃO DO STF DIANTE DO APAGÃO E DA HUMILHAÇÃO DE SEUS TRABALHADORES 

Embora a máquina do STF seja rápida para monitorar críticas e aplicar censuras, a reação da administração da corte diante do calote trabalhista foi marcada por uma omissão constrangedora. Pressionado pelo anúncio da greve e pela repercussão negativa da matéria, o tribunal tem tentado tratar o caso nos bastidores como um "problema exclusivo da empresa terceirizada", buscando blindar a imagem dos ministros. Todavia, a desculpa não se sustenta juridicamente, visto que o STF tem o dever legal de fiscalizar a regularidade trabalhista e previdenciária das prestadoras de serviço que contrata. Ao lavar as mãos para a situação, a cúpula do tribunal demonstra desprezo pelos pais e mães de família que operam as câmeras e microfones que massageiam os egos da corte nas transmissões diárias.

CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS E O RISCO DE APAGÃO NAS TRANSMISSÕES DO SUPREMO 

A consequência imediata da greve a partir do dia 15 é o risco real de interrupção ou severa limitação das transmissões ao vivo dos julgamentos do STF. Sem equipe técnica, operadores e editores, a vitrine eletrônica da corte pode sofrer um apagão técnico. Politicamente, o episódio sepulta de forma definitiva a autoridade moral do tribunal para julgar e punir infrações trabalhistas de terceiros, evidenciando o uso político e ideológico do aparato estatal. Enquanto o erário financia diárias, viagens internacionais e banquetes de luxo para os ministros, faltam os recursos básicos para honrar o prato de comida e o transporte de quem de fato trabalha nas dependências da instituição.