DINO ENQUADRA CÂMARA: DEPUTADO BOLSONARISTA FOGE PARA BAHREIN ENQUANTO É INVESTIGADO
Flávio Dino intima Hugo Motta para explicar desaparecimento de Mario Frias; deputado alega "missão oficial" mas Câmara não confirma; caso expõe perseguição judicial do STF contra PL envolvido em emendas para Dark Horse
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta quarta-feira (20 de maio) que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), preste explicações em até 48 horas sobre a viagem internacional do deputado federal Mario Frias (PL-SP) ao Bahrein. O ofício com a cobrança ocorre após tentativas frustradas do STF de intimar Frias por quase um mês para que ele explique a destinação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares a organizações ligadas à produção do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O parlamentar alega estar em "missão oficial", mas a própria Câmara dos Deputados não possui informações precisas sobre a duração ou autorização dessa missão.
O DESAPARECIMENTO ESTRATÉGICO DE MARIO FRIAS
Frias não é um deputado comum. Além de parlamentar, atua como produtor-executivo do filme Dark Horse, que retrata a campanha presidencial de Bolsonaro em 2018. Conforme denúncia apresentada pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) ao STF, Frias direcionou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil, uma organização não-governamental presidida pela produtora Karina Ferreira da Gama. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o Instituto está estruturalmente ligado à produtora audiovisual Go Up Entertainment, responsável pelas gravações do filme. O caso ganhou dimensão após The Intercept revelar mensagens nas quais o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedia recursos milionários ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar a produção. Vorcaro está preso desde novembro de 2025, acusado de fraude que causou rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito.
Em 21 de março deste ano, Flávio Dino, relator de uma ação no STF (ADPF 854), determinou que Mario Frias prestasse esclarecimentos sobre as emendas em um prazo de cinco dias. Desde então, a Corte tem enfrentado dificuldades para localizar o parlamentar. Um oficial de Justiça foi acionado para entregar a intimação, mas descobriu informação crucial: o endereço fornecido pela Câmara dos Deputados ao STF não corresponde mais à residência de Frias há aproximadamente dois anos. O gabinete do deputado informou ao oficial que Frias estava em "missão internacional" e que não havia previsão de retorno ao Brasil.
A PERSEGUIÇÃO DO STF CONTRA A DIREITA: ESTRATÉGIA OU JUSTIÇA?
Aqui reside o cerne da polêmica: é legítimo investigação ou ativismo judicial contra parlamentares do PL? A resposta não é simples, mas revela camadas de pressão política no STF. Primeiramente, é importante notar que a denúncia não partiu de Flávio Dino, mas da deputada Tabata Amaral (PSB), da oposição. Segundo, Dino não investigou apenas Frias: também intimou os deputados federais Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon (PL-MS), sugerindo que a investigação é mais ampla, sobre um "ecossistema" de repasses para o filme, não perseguição personalista. Terceiro, a investigação ocorre em contexto de escândalo maior envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Vorcaro, o que fornece justificativa aparente para o STF agir.
Mas a questão que circula nas redes conservadoras é diferente: por que Mario Frias consegue sair do Brasil invocando uma "missão oficial" que a própria Câmara não consegue comprovar? Por que um oficial de Justiça não consegue notificá-lo em seu endereço registrado há mais de dois anos? E, mais grave, por que apenas após falhar em notificar Frias pessoalmente o STF decidiu intimar o presidente da Câmara — sugerindo que Frias está se escondendo sob proteção parlamentar vaga? Essas questões tocam em preocupações legítimas sobre justiça seletiva: a direita é investigada agressivamente enquanto figuras de esquerda frequentemente escapam com processos arquivados ou prescritos.
HUGO MOTTA E A RESPONSABILIDADE INSTITUCIONAL
A notificação a Hugo Motta é procedimentalmente válida. Quando um parlamentar está supostamente em "missão oficial" autorizada pela Casa, a Casa é responsável por fornecer detalhes sobre essa missão. Motta, como presidente, deve informar: (1) se Frias possui autorização oficial para estar no exterior; (2) qual é a duração autorizada da missão; (3) quais são os custos e pagamentos relacionados; (4) quando se prevê o retorno. Se Motta não conseguir comprovar que existe "missão oficial" legítima, isso sugere que Frias simplesmente desapareceu — e que a Câmara não possui controle sobre seus próprios membros.
Conforme informações divulgadas pela Câmara dos Deputados, Frias apresentou pedido de "missão oficial" sem ônus para a instituição no Bahrein entre 12 e 18 de maio. Mas "missão oficial" é conceito vago na legislação brasileira. Qualquer deputado pode alegar que está "fortalecendo relações bilaterais" ou "participando de seminário internacional" e usar essa alegação para ausentar-se do Brasil enquanto é investigado. Até o momento não há confirmação de que a missão de Frias ao Bahrein teve qualquer propósito oficial documentado pela Câmara.
O SILÊNCIO DA DEFESA E AS IMPLICAÇÕES POLÍTICAS
Mario Frias não respondeu publicamente às acusações. Sua estratégia aparente é permanecer inapreensível: fora do Brasil, invocando "missão oficial" que não pode ser verificada, enquanto aguarda que o tempo transcorra ou que a investigação seja abandonada. Seus aliados no PL argumentam que há perseguição judicial, mas não conseguem explicar por que Frias não simplesmente volta ao Brasil e enfrenta o STF — a menos que haja fundamento nas acusações.
O caso também expõe fragilidade institucional. Se um deputado pode desaparecer do país invocando vagueza burocrática, e a Câmara dos Deputados não consegue nem fornecer o endereço correto de seus membros, então o sistema de justiça está funcionando com as mãos atadas. Flávio Dino agiu de forma tecnicamente correta ao intimar Hugo Motta — porque Motta é a autoridade responsável por informações sobre deputados. Mas a pergunta mais dura é: por que a Câmara não conseguiu localizar Frias primeiro?
CONCLUSÃO: SISTEMA DESCREDITADO
O que emerge deste caso não é simplesmente "perseguição do STF contra a direita", embora elementos dessa dinâmica existam. O que emerge é descredibilização mútua: o STF age de forma que parece seletiva e ativista; a direita responde desaparecendo ou esquivando-se processualmente; e o Legislativo (representado por Motta) fica apanhado no meio, incapaz de sequer localizar seus próprios membros. Todos saem perdendo, e a confiança institucional é corroída. Mario Frias talvez tenha direito de desconfiar do STF, mas sua resposta foi fugir — o que confirma suspeitas sobre o mérito das investigações contra ele. Flávio Dino talvez esteja investigando legitimamente, mas seu método (intimar presidente de câmara porque não consegue notificar o deputado) alimenta narrativa de ativismo. E Hugo Motta, que deveria ser guardião institucional, simplesmente não conhece o paradeiro de seus próprios deputados.

