AUDIO DE FLAVIO COM VORCARO PROVOCA RACHA BOLSONARISTA; CONSTANTINO DETONA E ADIA PROJETO DE DIREITA
Após gravação vazada mostrando negociação com banqueiro preso, analista conservador desconta fogo na família e acusa bolsonarismo de abandono de princípios
O vazamento pelo Intercept Brasil de um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobra diretamente dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master liquidado pelo Banco Central, para financiar o filme biográfico "Dark Horse" sobre seu pai provocou a pior crise interna do bolsonarismo até agora, com Rodrigo Constantino, um dos influenciadores mais leais ao clã, abandonando publicamente a trincheira em 13 de maio de 2026.
O GATILHO: ANDRÉ DO PRADO E A VENDA AO CENTRÃO
O desgaste que explodiria no vazamento começou semanas antes. No começo de maio, Eduardo Bolsonaro anunciou sua indicação de André do Prado, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), como pré-candidato ao Senado em São Paulo, ocupando a primeira posição da chapa de Tarcísio de Freitas. Eduardo entraria como primeiro suplente. A escolha foi imediata: Rodrigo Constantino publicou no X: "Que vergonha". Para setores ideológicos da direita, André do Prado representa exatamente aquilo que os Bolsonaro sempre criticaram na velha política. Ele é visto como quadro do Centrão ligado umbilicalmente a Valdemar Costa Neto, presidente do PL. Enquanto isso, Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro e também pré-candidato ao Senado, iniciou uma campanha pública contra a escolha, chamando Prado de "pupilo de Valdemar" e criticando o que chamou de "concessão da direita à velha política".
O ESCÂNDALO QUE RASGOU A LEALDADE
Mas foi o áudio vazado de Flávio com Vorcaro que dinamitou qualquer possibilidade de costura. Segundo a reportagem do Intercept Brasil, publicada em 13 de maio de 2026, Flávio Bolsonaro foi gravado em conversa direta com Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master (mais tarde preso em operação da PF), negociando um repasse total de 24 milhões de dólares —aproximadamente R$ 134 milhões— para viabilizar a produção de "Dark Horse". Pelo menos R$ 61 milhões foram repassados entre fevereiro e maio de 2025 em seis operações bancárias. No áudio, Flávio reclama de atrasos nos pagamentos. "A gente não pode vacilar, não pode deixar de honrar os compromissos aqui, porque senão perde tudo," disse o senador, citando o risco de "dar calote" no ator hollywoodiano Jim Caviezel e no diretor Cyrus Nowrasteh.
O que tornava o caso explosivo não era apenas o volume de dinheiro ou a origem — um banqueiro que operava um esquema bilionário de fraude —, mas o timing e o símbolo. Flávio Bolsonaro, nome de transição presidencial do clã, estava cobrando milhões de um banqueiro criminoso semanas antes da prisão de Vorcaro e da intervenção do Banco Central. Pior: o senador mantinha contato pessoal com o banqueiro em dias anteriores à sua captura, conforme documentos obtidos pelo Intercept.
QUANDO A DIREITA VIROU AS COSTAS
A reação dentro do campo bolsonarista foi de desorientação imediata. Em publicação no X na quarta-feira 13 de maio, Rodrigo Constantino, comentarista que sempre defendeu a família Bolsonaro em suas redes sociais (2.5 milhões de seguidores) e em participações em programas de opinião, escreveu: "Eu realmente espero que esse áudio seja falso. SE for verdade, acabou." A frase era curta, mas representava um terremoto político: um dos intelectuais mais leais da direita bolsonarista descendo da trincheira.
Horas depois, em vídeo publicado em seu canal do YouTube, Constantino aprofundou a crítica. Disse que o caso "não dá para passar pano" e que a associação entre Flávio, Vorcaro e o Banco Master "está totalmente associada agora ao bolsonarismo e à candidatura do Flávio. Totalmente." O comentarista também detonou bolsonaristas que tentaram inicialmente desacreditar a reportagem do Intercept e depois passaram a minimizar o conteúdo dos áudios. "Isso é cinismo de alto nível," declarou.
A saída de Constantino foi particularmente simbolicamente poderosa porque ele vinha criticando a indicação de André do Prado logo antes. Enquanto Eduardo tentava costurar apoio ao "pupilo do Valdemar," Constantino acuava o projeto nas redes. Quando o áudio vazou, o próprio Flávio virou alvo. A direita bolsonarista, que se apresentava como força moralizadora contra a corrupção da esquerda, via seu projeto presidencial enterrado sob acusações de proximidade com crime financeiro de escala bilionária.
O ISOLAMENTO CRESCE
O ex-deputado federal Alexandre Ramagem, aliado próximo da família, respondeu atacando não apenas Constantino mas também Romeu Zema (Novo), governador de Minas Gerais que também se afastou publicamente de Flávio após o vazamento. Ramagem chamou ambos de "traidores" e disse que Constantino "mostrou um papel baixo" no episódio. Mas o ataque revela o pânico: nem pressão de aliados históricos conseguia trazer de volta Constantino.
Até o momento, não há confirmação oficial de que Rodrigo Constantino tenha sido demitido pela Rádio Áurea Verde, plataforma onde era comentarista alinhado ao bolsonarismo. Porém, a tensão entre o comentarista e setores bolsonaristas radicalizados cresceu exponencialmente. Em publicação no X em 14 de maio, Constantino revelou estar recebendo mensagens de bolsonaristas extremados que se arrependiam de terem rezado pela sua recuperação durante seu tratamento de câncer em 2025. "Orar por mim quando tinha câncer mas abandonar a fé quando discordo de Bolsonaro? Isso é seita, não é política," escreveu.
O RACHA QUE NINGUÉM QUERIA NOMEAR
O episódio marca o final de um ciclo. Por anos, a direita bolsonarista se apresentava como bloco unificado contra a "esquerda corrupta" e o "ativismo judicial do STF." A narrativa descrevia o bolsonarismo como força moralizadora, anti-establishment, anti-Centrão, anti-corrupção. Mas a indicação de André do Prado —figura acusada de intermediário do Centrão— combinada com o áudio de Flávio negociando centenas de milhões com banqueiro criminoso, rachava publicamente esse discurso.
Rodrigo Constantino, ao se afastar, não estava apenas criticando Flávio. Estava testemunhando o colapso do projeto ideológico que defendeu por uma década. Eduardo tentava explicar que Prado traria "capilaridade" de prefeitos ao projeto de Flávio. Constantino responderia que capilaridade é o nome bonito para dizer "votos do Centrão." Quando Flávio cobrava dinheiro de Vorcaro para filmar a história de seu pai como herói, Constantino enxergava apenas o espelho da velha política que a direita prometera combater.
O bolsonarismo que Constantino conheceu e defendeu —aquele que se posicionava como alternativa limpa à corrupção tradicional— virou poeira. No seu lugar, a família Bolsonaro abraçava indicações centristas, negociava com banqueiros presos e cobrava em áudios privados aquilo que negava em notas públicas.

