O Instituto AtlasIntel, fundado pelo cientista político Andrei Roman e que há anos se posiciona como modelo de precisão em pesquisas eleitorais, enfrentará nesta semana apuração do Tribunal Superior Eleitoral por suposta manipulação metodológica em pesquisa presidencial divulgada em 19 de maio. O Partido Liberal acionou o TSE pedindo suspensão de divulgação, multa de até R$ 106,4 mil e apuração de crime eleitoral, alegando que o questionário foi “sequencialmente arquitetado” para prejudicar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mediante inclusão de áudio de conversa dele com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O PADRÃO METODOLÓGICO QUESTIONADO

A pesquisa BR-06939/2026 ouviu 5.032 eleitores entre 15 e 18 de maio. Das 48 perguntas do questionário, o PL identifica ao menos oito questões que induzem negativamente o entrevistado sobre envolvimento de Flávio com Vorcaro e fraudes bilionárias. Segundo documento protocolado no TSE, a sequência progressiva das perguntas constrói um encadeamento: medo eleitoral → comparação Lula x Flávio → fraude financeira → Banco Master → Daniel Vorcaro → conversas vazadas → envolvimento direto → impacto sobre voto → enfraquecimento de candidatura → possível retirada de candidatura. O PL sustenta, com citação de literatura científica, que a ordem das perguntas altera resultados em até 20 pontos percentuais, transformando pesquisa em “meio indireto de propaganda negativa” e não em medição neutra de opinião.

A CONTRADIÇÃO NO ÁUDIO E A FALTA DE IMPARCIALIDADE

O CEO Andrei Roman afirma em rede social que o áudio foi reproduzido “apenas após conclusão do questionário” e, portanto, não impactou cenários eleitorais. Porém, a estrutura mesma da pesquisa revela a contradição. Após responder sobre intenção de voto para presidente, o entrevistado é submetido a ferramenta interativa onde ouve o áudio de Flávio pedindo R$ 134 milhões a Vorcaro para financiar filme Dark Horse sobre Jair Bolsonaro e classifica a conversa arrastando cursor entre “terrível”, “neutro” e “excelente”. Embora metodicamente posterior ao questionário principal de intenção de voto, a lógica da sequência cria contaminação: o eleitor primeiro estabelece cenário eleitoral (onde Flávio aparece) e imediatamente depois é confrontado com conteúdo de altíssima rejeição mediada por ferramenta que a pesquisa sabe produzirá resposta negativa massiva. Roman declara que AtlasIntel “sempre mantém postura imparcial a nível global” — alegação que colide frontalmente com decisão tomada de incluir áudio sensacionalista em período de campanha presidencial com único propósito de medir reação negativa.

OS NÚMEROS QUE ATESTAM O DANO CALCULADO

A pesquisa indicou que 64,1% dos entrevistados avaliam que divulgação do áudio “enfraqueceu a candidatura” de Flávio. Entre estes, 45,1% classificam enfraquecimento como “muito grave” e 19% como “parcial”. Na disposição de voto, 18,1% afirmaram ter ficado menos propensos a votar em Flávio após o caso, enquanto 18,8% disseram estar mais dispostos — desequilíbrio que sugere pré-fabricação de tendência negativa. O instituto comunicou investimento de R$ 75 mil em “aplicação de questionários eletrônicos”, custo que denuncia planejamento premeditado de operação específica contra candidato bolsonarista. Número de respondentes (5.032) foi calculado para margem de erro de apenas 1%, conferindo peso estatístico que falsamente legitima resultados “contaminados” segundo terminologia técnica do próprio TSE em precedentes.

JURISPRUDÊNCIA DO TSE CONTRA METODOLOGIAS MANIPULATÓRIAS

O TSE possui histórico de punição a institutos que distorcem metodologia com propósito eleitoral. Em caso de 2024 em Curitiba, tribunal multou AtlasIntel em R$ 106,4 mil por falta de transparência em dados amostrais, além de multa adicional de R$ 50 mil por hora após notificação em que pesquisa permaneceu acessível. Em casos de Manaus e Tocantins, tribunal suspendeu pesquisas com multas diárias de R$ 5 mil para qualquer atividade de divulgação. Em representação atual contra AtlasIntel sobre pesquisa presidencial, PL cita expressamente essa jurisprudência, argumentando que estrutura sequencial contaminadora viola não apenas lei eleitoral mas princípios de imparcialidade que já motivaram sanções anteriores do tribunal contra o próprio instituto.

DEFESA DE ANDREI ROMAN E SEUS LIMITES

Roman argumenta no X que “teste de áudio foi realizado somente após conclusão do questionário em momentos e interfaces completamente separadas sem qualquer interferência nas respostas”. Essa defesa técnica enfrenta limite prático: a pesquisa foi divulgada como bloco único ao público, criando narrativa integrada onde os números de queda de Flávio são inseparáveis do impacto quantificado do áudio. Reportagem do jornalista Claudio Dantas que revelou estrutura questiona exatamente essa “excentricidade” — termo que caracteriza escolha deliberada de incluir material sensacionalista em instrumento de medição que se apresenta como neutro. Roman representa cientista político formado por Harvard que apostou carreira em afirmar que metodologia digital do AtlasIntel é superior aos institutos “tradicionais”; decisão de incorporar áudio em contexto eleitoral polarizado suggere que pressões de mercado (competição por relevância jornalística) ou viés editorial sobrepujaram rigor metodológico.

IMPACTO À REPUTAÇÃO INTERNACIONAL DO INSTITUTO

AtlasIntel construiu nos últimos cinco anos reputação de precisão que o diferenciava de institutos brasileiros acusados de enviesamento. O instituto se orgulhava de acertos em Argentina (2019), Colômbia (2022), Estados Unidos (2020) e África do Sul (2024), além de desempenho superior em eleições brasileiras 2024. Decisão de incluir áudio politicamente sensível em pesquisa presidencial em contexto de campanha aquecida expõe o instituto a acusação de que sua reputação de imparcialidade foi calculada — que existe quando não há pressão, mas cede quando viés editorial oferece vantagem narrativa. Roman defendeu em 2022 que “mercado deveria regular credibilidade das pesquisas” via livre competição; essa mesma lógica agora funciona contra AtlasIntel: institutos que perdem credibilidade deixam de ser contratados. Já há críticos de direita e esquerda questionando se AtlasIntel realmente é imparcial ou se mascarou viés durante anos.

CENÁRIOS ADIANTE E RISCO DE DESTRUIÇÃO INSTITUCIONAL

Se TSE conceder liminar suspendendo divulgação conforme solicitado pelo PL, AtlasIntel enfrentará: multa máxima de R$ 106,4 mil, proibição de divulgação de sete perguntas do questionário, acesso forçado aos microdados para fiscalização, possível investigação por crime eleitoral. Se TSE mantiver pesquisa visível mas impuser ressalva sobre “contaminação metodológica”, AtlasIntel ganha tecnicamente mas perde credibilidade — os números circulam com nota de fraude. Se PL conseguir demonstrar que questões 9-19, 22, 25 e 48 violam lei (Lei das Eleições Art. 33-A), tribunal pode invalidar integralmente a pesquisa presidencial, expondo fracasso metodológico irreversível. Precedente mais grave: em 2022, tribunal suspendeu pesquisa de instituto “tradicional” por falta de clareza em fontes de dados; a mesma razão poderia invalidar pesquisa AtlasIntel se TSE examinar logs de aplicação conforme solicitado.

A PERGUNTA QUE FICA

O episódio expõe fracasso do modelo que Andrei Roman propôs: que credibilidade de institutos deveria ser regulada por mercado em vez de normas estritas. A realidade é que um único erro metodológico — deliberado ou negligente — destrói em horas reputação construída em anos de acertos. AtlasIntel aposta que convencerá TSE de que áudio posterior a questionário não contamina; mas jurisprudência, estrutura sequencial da pesquisa e lógica de impacto negativo concentrado sugerem que tribunal encontrará base legal para intervir. A questão não é se AtlasIntel errou tecnicamente, mas se institutos de pesquisa numa democracia polarizada conseguem manter imparcialidade quando têm incentivo — comercial, narrativo ou político — para não mantê-la.