ALCOLUMBRE ENTERRA CPMI DO MASTER E DIREITA VIRA O JOGO DO "ACORDÃO"
Presidente do Senado bloqueia investigação usando manobra regimental. STF e Congresso protegem ministros envolvidos em caso do banqueiro Daniel Vorcaro.
Quinta-feira, 21 de maio de 2026. Davi Alcolumbre, presidente do Senado e do Congresso Nacional, fez o que a direita vinha temendo há meses: enterrou a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigaria o Banco Master — um escândalo que envolve ministros do STF, políticos dos três poderes e o banqueiro Daniel Vorcaro. A manobra foi simples, mas politicamente devastadora. Alcolumbre simplesmente se recusou a ler o requerimento de criação da CPMI durante a sessão conjunta do Congresso. O regimento, alegou, era "discricionário" da presidência. E pronto. A investigação morreu antes de nascer.
O JOGO QUE NINGUÉM QUER ADMITIR
Há semanas que Alcolumbre segura o requerimento. O documento já tem assinaturas de sobra — 171 parlamentares assinaram, exigência constitucional cumprida. A única coisa que faltava era a leitura na primeira sessão conjunta do Congresso. Teoricamente, um ato administrativo simples. Na prática, Alcolumbre enrolava, enrolava, enrolava. Por quê? Porque lendo o requerimento, a CPMI seria instalada, e aí começaria uma investigação que ninguém nos Três Poderes quer que aconteça. Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à presidência, subiu na tribuna pedindo a abertura. "Quero Daniel Vorcaro e Augusto Lima sentados no banco da CPMI explicando qual era a relação deles com Flávio Bolsonaro, Lula e Alexandre de Moraes", disse. Nada adiantou. Alcolumbre manteve a cadeira firme.
A CONTRADIÇÃO DESMASCARADA
Mas há algo muito estranho nessa história. Na mesma semana em que Alcolumbre barrou a CPMI, ele derrubou o veto de Lula à Lei da Dosimetria — lei que reduz penas de presos do 8 de janeiro, beneficiando quem atacou a Democracia. Dois movimentos simultâneos que servem a interesses opostos: bloqueia investigação de ministros, aprova anistia para bolsonaristas. A revista Fórum descreveu isso como um "acordão". Alcolumbre teria oferecido a Flávio Bolsonaro uma ponte com Moraes no STF — barrava a CPMI, aprovava a Dosimetria, e ambos saíam ganhando. Flávio nega em nota protocolar, dizendo ser absurdo supor "entendimento com Alexandre de Moraes". Mas a matemática política fala por si mesma.
MINISTROS PROTEGIDOS POR ALCOLUMBRE
A razão real pela qual ninguém quer a CPMI é esta: se Vorcaro delatasse, sairiam à luz encontros entre ministros do STF e o banqueiro. Moraes em particular tem explicações para dar — segundo apurações da imprensa, ele teria tido encontros com Vorcaro em Campos do Jordão, férias "gostosas" conforme a alcunha jocosa usada por críticos. A PF investigou. Há suspeitas. Uma CPMI com poder de subpoena e espaço de tribunal de opinião traria holofote massivo sobre essas questões. Alcolumbre, que tem relação estreita com Moraes desde 2016 (quando ambos foram indicados por Michel Temer), sabia perfeitamente disso. Por isso barrou a CPMI. Para proteger o STF. Para proteger Moraes.
A IMPOTÊNCIA DA DIREITA
Para a direita bolsonarista, essa cena é apavorante. Flávio pediu a CPMI publicamente, esperando consenso. Mas descobriu que nem a oposição, nem a base governista, nem Alcolumbre, nem Moraes queriam mexer no vespeiro. O PT, surpreendentemente, tem razão em querer evitar — Lula também pode sair maculado se Vorcaro falar sobre encontros com o presidente. A oposição está dividida, enfraquecida, incapaz de pressionar Alcolumbre de verdade. E Alcolumbre, pragmático, negocia com os dois lados em segredo. Barrou Dosimetria para agradar Lula, vai derrubá-la para agradar Bolsonaristas, atrasa CPMI indefinidamente para proteger ambos. É o Centrão em seu estado puro.
O QUE SOBRA PARA O POVO
André Mendonça, ministro do STF, segue investigando o caso Master. A PF segue investigando. Mas sem a CPMI, sem o Congresso, sem a visibilidade, sem o poder de subpoena, sem a pressão do público — a investigação avança em câmara lenta. E enquanto isso, o tempo passa. Vorcaro pode morrer. Testemunhas podem sumir. Documentos podem desaparecer. A direita vê isso e reconhece o padrão: é assim que funciona o Brasil dos ministros, dos acordões, da justiça seletiva. Alguns investigam enquanto outros protegem. A CPMI do Master foi enterrada por Alcolumbre não porque falta legitimidade — falta porque tem demais. Porque é exatamente esse o jogo que os Três Poderes querem jogar: sem julgamento público, sem exposição, sem consequências.

