ULTIMATO DE TRUMP: CASA BRANCA EXIGE PLANO DE GUERRA CONTRA O CRIME E BRASIL PODE VIRAR PRESÍDIO DE ESTRANGEIROS
*Em troca da visita de Lula a Washington, governo Trump impõe condições duras: plano para "acabar" com PCC e CV, receber presos de outros países e compartilhar dados biométricos de refugiados. Planalto recusa e tenta gan
O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou um ultimato ao Brasil que expõe, sem disfarces, a fragilidade da posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no cenário internacional. Em negociações para a aguardada visita de Lula à Casa Branca, agora prevista para abril de 2026, Washington apresentou um conjunto de exigências que, se aceitas, representariam uma verdadeira inflexão na soberania nacional e um reconhecimento de que o governo brasileiro é incapaz de lidar com o crime organizado que assola o país . Enquanto Lula tenta contemporizar e o chanceler Mauro Vieira busca uma saída diplomática, os Estados Unidos já deixaram claro que não dependem da anuência do Planalto para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, uma medida que pode abrir as portas para ações unilaterais em território brasileiro e que já é vista por governadores da oposição, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), como uma "oportunidade" histórica .
_AS EXIGÊNCIAS AMERICANAS: UM PACOTE QUE FERE A SOBERANIA_
A contraproposta americana ao plano de cooperação apresentado por Lula em um telefonema a Trump em dezembro de 2025 é dura e direta. De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo publicada na sexta-feira, 13 de março, o governo Trump condiciona o avanço da parceria a três medidas principais, que foram rejeitadas liminarmente pelo Planalto :
1. Plano para "Acabar" com Facções: Os EUA exigem que o Brasil apresente uma estratégia detalhada para "acabar" com o PCC, o Comando Vermelho, o Hezbollah e organizações criminosas chinesas que atuam em solo brasileiro. A linguagem, incomum em acordos bilaterais, escancara a percepção de Washington de que o Estado brasileiro perdeu o controle sobre partes de seu território para o crime organizado .
2. Presídios Brasileiros para Estrangeiros: Seguindo o modelo do Centro de Confinamiento del Terrorismo (CECOT), em El Salvador, os EUA propuseram que o Brasil receba em suas prisões estrangeiros capturados em território americano. A ideia, vista como uma transferência de responsabilidade e um fardo descomunal para o já combalido sistema prisional brasileiro, foi prontamente rejeitada pelo Itamaraty .
3. Compartilhamento de Dados Biométricos: O governo Trump também quer acesso irrestrito a informações, incluindo dados biométricos, de estrangeiros que buscam refúgio ou já são refugiados no Brasil. A medida visa bloquear a imigração em massa que entra pelos Estados Unidos através de portos e fronteiras brasileiros, mas levanta bandeiras vermelhas sobre a privacidade e o uso dessas informações por uma potência estrangeira .
Diante do impasse, o governo Lula propôs uma cooperação focada no combate financeiro às facções, com bloqueio de ativos ilegais nos EUA e rastreamento de criptoativos. A ideia, no entanto, foi rejeitada por não atacar o que Washington considera o cerne do problema: a capacidade operacional e territorial das facções .
_CLASSIFICAÇÃO COMO TERRORISTAS: A ESPADA SOBRE A CABEÇA DE LULA_
O pano de fundo de toda essa negociação é a iminente decisão americana de classificar o PCC e o CV como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês). No último domingo, 8 de março, o portal UOL reportou que a documentação para a designação já foi finalizada e que o anúncio pode ocorrer a qualquer momento . Na terça-feira, 10 de março, o Departamento de Estado dos EUA emitiu uma nota oficial afirmando que vê as duas facções como "ameaças significativas à segurança regional em função do seu envolvimento com o tráfico de drogas, violência e crime transnacional" .
A declaração acendeu todos os alertas no Palácio do Planalto. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chegou a telefonar para o secretário de Estado americano, Marco Rubio, pedindo que aguardasse a reunião entre Lula e Trump antes de qualquer decisão, mas o resultado foi frustrante . O promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organificado (Gaeco/MP-SP), que há 20 anos investiga o PCC e vive sob escolta, revelou o tamanho da derrota diplomática: "Os Estados Unidos não irão levar em conta a posição do governo brasileiro sobre classificar o PCC como organização terrorista" . Gakiya, que se reúne nesta semana com o FBI e a DEA, alerta que, em vez de ajudar, a medida pode criar barreiras burocráticas e fechar canais de cooperação, transferindo o caso para a CIA e o âmbito militar .
_O RISCO REAL: SANÇÕES, INTERVENÇÃO E O PRECEDENTE DA VENEZUELA_
A classificação como "terroristas" vai muito além de um rótulo. Ela desencadeia um arcabouço legal nos EUA que prevê o congelamento de ativos, sanções econômicas severas e, o mais preocupante, a autorização para "ações militares fora do território americano" para combater esses grupos . O temor no governo brasileiro, compartilhado por especialistas, é que se repita no Brasil o que aconteceu na Venezuela em janeiro deste ano, quando forças especiais americanas invadiram o país e capturaram o presidente Nicolás Maduro sob a justificativa de que ele liderava uma organização "narcoterrorista" .
O professor de Relações Internacionais da PUC Minas, Jorge Lasmar, explica à Agência Pública que a designação "abre acesso a ferramentas de inteligência e contraterrorismo e muda a doutrina de uso da força". Isso levanta preocupações sobre os EUA usarem isso como desculpa para operações que afetem o Brasil, como bombardeios de embarcações na Amazônia ou na costa . Além disso, os impactos econômicos seriam devastadores: empresas brasileiras que operam nos EUA poderiam ser acusadas de "auxílio material ao terrorismo" se forem extorquidas ou tiverem qualquer relação indireta com áreas dominadas por facções, sofrendo sanções e tendo seus bens congelados. O custo de compliance para o setor financeiro dispararia, e o Brasil seria visto como um "parceiro de risco" no mercado internacional .
_TARCÍSIO DE FREITAS: UMA VOZ DISSONANTE E A OFENSIVA BOLSONARISTA_
Em meio à crise, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), adotou um tom diametralmente oposto ao do Palácio do Planalto. Na quarta-feira, 11 de março, em entrevista a jornalistas na capital paulista, Tarcísio classificou a possível decisão americana como uma "oportunidade" .
"Eu enxergo isso como uma oportunidade, porque, a partir do momento em que um governo como os Estados Unidos encara o PCC como organização terrorista – e é, de fato, o que eles são –, fica mais fácil, fica aberto o caminho da cooperação para que a gente possa integrar inteligência, trazer recursos financeiros e fazer um combate ainda mais efetivo", declarou o governador .
A declaração de Tarcísio, além de expor a divisão interna no país sobre o tema, dá munição à ala bolsonarista que acusa o governo Lula de ser conivente com o crime organizado. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos EUA, tem atuado nos bastidores para pressionar pela designação das facções como terroristas . A oposição já articula no Congresso a aprovação de um projeto de lei que equipara os crimes de facções ao terrorismo, o que, na prática, referendaria a posição americana e isolaria ainda mais o governo federal. O governo Lula, encurralado diplomaticamente e fragilizado internamente, tenta ganhar tempo, mas o relógio corre a favor de Washington e das facções que, enquanto isso, continuam a expandir seu domínio.
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