TRUMP E O ESTREITO DE ORMUZ: O JOGO DE TRÊS TEMPOS QUE ESTÁ REDEFININDO OS LIMITES DO PODER AMERICANO
Em menos de uma semana, Trump pediu ajuda aos aliados, declarou que não precisa de ninguém e voltou a pressionar as mesmas nações — numa sequência que revela, sutilmente, a complexidade de uma guerra que saiu do roteiro.
Há um fio condutor discreto, mas revelador, nas últimas declarações do presidente Donald Trump sobre o Estreito de Ormuz. Quem acompanha com atenção a cronologia dos eventos percebe que, em menos de uma semana, o presidente dos Estados Unidos percorreu três posições distintas: pediu ajuda, declarou que nunca precisou dela — e voltou a pressionar. Nesta quarta-feira (18/3), conforme reportagem do Correio Braziliense, Trump publicou na Truth Social uma nova mensagem dirigida aos aliados sobre o Estreito de Ormuz, desta vez com tom ameaçador e insinuante: "Eu me pergunto o que aconteceria se 'acabássemos' com o que restou do Estado terrorista iraniano e deixássemos que os países que o utilizam — nós não — fossem responsáveis pelo chamado 'Estreito'?", escreveu. O contexto dessa declaração, contudo, merece uma leitura mais cuidadosa do que seu tom sugere.
O PRIMEIRO TEMPO: O PEDIDO DE SOCORRO
No sábado (14/3), Trump fez um chamado global e pediu que países afetados pelo fechamento de Ormuz — por onde cerca de 20% do comércio mundial de petróleo passa — enviassem navios de guerra para manter o local aberto. O presidente citou nominalmente China, França, Japão e Coreia do Sul como nações das quais esperava suporte. A justificativa era razoável do ponto de vista econômico: a Agência Internacional de Energia alertou que a oferta mundial de petróleo deveria cair oito milhões de barris por dia em março devido à disrupção da navegação no estreito, e o barril do tipo Brent ultrapassava a casa dos 103 dólares. O pedido fazia sentido. O problema foi o que veio a seguir.

O SEGUNDO TEMPO: "NÃO PRECISAMOS DE NINGUÉM"
A resposta dos aliados foi negativa e, em muitos casos, áspera. Alemanha, Espanha e Itália descartaram a participação em qualquer missão no Golfo Pérsico. O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, foi direto: "O que Trump espera que um punhado de fragatas europeias façam no Estreito de Ormuz que a poderosa Marinha dos EUA não possa fazer? Esta não é a nossa guerra, nós não a começamos." Diante do recuo generalizado, Trump mudou o tom. O presidente publicou nas redes sociais que, "devido ao sucesso militar alcançado", os EUA "não precisam mais, nem desejam, a assistência dos países da OTAN", e que "como presidente dos Estados Unidos da América, de longe o país mais poderoso do mundo, não precisamos da ajuda de ninguém". Uma declaração que soou como orgulho. Mas que, nas entrelinhas, carregava a marca do isolamento.

O TERCEIRO TEMPO: A PRESSÃO QUE VOLTA PELA PORTA DOS FUNDOS
E então veio esta quarta-feira (18/3). Trump voltou a falar sobre o Estreito de Ormuz, criticando aliados após eles se recusarem a auxiliar as forças americanas, e sugerindo que, se os EUA "acabassem" com o regime iraniano, os países dependentes da rota seriam forçados a agir rapidamente. Não se trata mais de um pedido direto. Trata-se de uma pressão indireta, embalada numa ameaça hipotética. A mensagem real, lida com atenção, é: os aliados precisam se mover — mas Trump não quer mais fazer o favor de pedir formalmente. A solução encontrada foi sugerir que a necessidade se imporá por si mesma, quando e se os EUA destruírem o que resta da capacidade iraniana. É uma postura inteligente do ponto de vista retórico. Mas também é, em essência, o mesmo pedido de antes, revestido de uma roupagem mais assertiva.
O DETALHE QUE NÃO PODE SER IGNORADO: OS EUA TAMBÉM NÃO ESTÃO PRONTOS
Há um dado que passou relativamente despercebido nessa movimentação toda, mas que contextualiza muito do que está acontecendo. O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, admitiu que a Marinha americana ainda não tem condições de iniciar imediatamente as operações de escolta naval no Estreito de Ormuz, porque todos os recursos militares estão concentrados na ofensiva contra a infraestrutura militar iraniana. "Isso vai acontecer relativamente em breve, mas não pode acontecer agora", disse Wright. Em outras palavras: os EUA pediram ajuda a aliados para uma missão que eles próprios ainda não podem executar. E quando os aliados recusaram, declararam que nunca precisaram. Existe aqui uma delicada tensão entre a narrativa de onipotência americana e a realidade operacional do conflito.

O TERMÔMETRO DO ADVERSÁRIO: O IRÃ ENXERGOU A CONTRADIÇÃO
Não passou despercebido ao Irã o movimento oscilante de Trump. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, foi direto ao apontar a contradição: "Eles realizaram ataques em grande escala e novamente repetiram a exigência de rendição incondicional. Hoje, aproximadamente 15 dias desde o início da guerra, eles estão recorrendo a outros países em busca de ajuda para garantir a segurança do Estreito de Ormuz e mantê-lo aberto." Seja qual for a avaliação política que se faça sobre o regime iraniano, a observação factual de Araghchi descreve com precisão a sequência de eventos. Trump declarou vitória, pediu ajuda, disse que não precisava e voltou a pressionar — tudo em poucos dias. O adversário notou.
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O QUADRO COMPLETO: UMA GUERRA QUE EXIGE MAIS DO QUE DECLARAÇÕES
O que essa sequência revela não é fraqueza de Trump — é a complexidade real de uma guerra que não segue o roteiro de vitórias rápidas. A Agência Internacional de Energia registrou a maior interrupção nos mercados globais de petróleo da história, com corte de cerca de 8% dos suprimentos globais em março, enquanto o novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, declarou que o estreito deve permanecer fechado. A retórica presidencial pode variar de um dia para o outro — mas o Estreito de Ormuz permanece sob pressão. O Irã mantém o canal fechado para os EUA e seus aliados, autorizando apenas passagens seletivas de países com os quais negociou diretamente, como a Índia. E enquanto isso, o preço do barril segue elevado, o petróleo russo fica mais valioso — e Putin observa.
O jogo de Trump em torno do Estreito de Ormuz é, ao mesmo tempo, audacioso e intrincado. Audacioso pela disposição de desafiar tanto o Irã quanto os aliados em público. Intrincado porque, no tablado geopolítico real, declarações mudam a todo momento — mas o petróleo, a guerra e as alianças têm seu próprio ritmo. E esse ritmo, por enquanto, não está seguindo o calendário da Truth Social.
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