ROGÉRIO MARINHO DISSE QUE NÃO HAVIA “NADA A SER ABAFADO” NO CASO DARK HORSE; PF ABRIU INQUÉRITO DEPOIS
Declaração foi dada à CNN antes de André Mendonça autorizar investigação sobre repasses ligados a projeto audiovisual nos Estados Unidos. Flávio Bolsonaro nega vantagem ou contrapartida.
O senador Rogério Marinho afirmou, em entrevista à CNN no dia 3 de junho de 2026, que não existia “nada a ser abafado” no caso envolvendo Flávio Bolsonaro, o Banco Master e o projeto audiovisual Dark Horse. Marinho prometeu que haveria prestação de contas sobre a negociação e negou que uma viagem relacionada a Donald Trump tivesse sido utilizada para desviar a atenção do episódio.
A declaração foi feita antes de o ministro André Mendonça autorizar, em 23 de julho, a abertura de inquérito pela Polícia Federal. Com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República, a investigação passou a apurar a origem e o destino de repasses ligados ao projeto, além da possível existência de alguma contrapartida.
FRASE DE MARINHO FOI ANTERIOR À ABERTURA DO INQUÉRITO
A sequência temporal é essencial para compreender o caso. Quando Rogério Marinho concedeu a entrevista, o inquérito ainda não havia sido autorizado pelo Supremo Tribunal Federal. Sua declaração expressava a posição política adotada naquele momento, mas não antecipava o resultado de uma investigação que só começaria semanas depois.
A abertura do inquérito não significa que a afirmação de Marinho tenha sido comprovadamente falsa. Também não demonstra culpa de Flávio Bolsonaro ou de qualquer empresa envolvida. Significa apenas que as autoridades entenderam existir elementos suficientes para aprofundar a apuração.
A promessa de transparência, contudo, permanece válida. Depois da formalização da investigação, cresce a necessidade de apresentar documentos, contratos, responsáveis pelas transferências e destinação dos recursos.
DOCUMENTOS INDICAM SEIS TRANSFERÊNCIAS PARA ESTRUTURA NOS ESTADOS UNIDOS
Documentos mencionados nas apurações indicam seis transferências que totalizariam aproximadamente US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões na conversão divulgada. Os recursos teriam sido enviados para uma estrutura empresarial ou fundo localizado nos Estados Unidos e relacionado ao projeto audiovisual.
Não há indicação de que esse valor tenha sido transferido diretamente para a conta pessoal de Flávio Bolsonaro. A investigação busca identificar o beneficiário final, a finalidade dos pagamentos e a relação entre as empresas participantes.
A negociação discutida inicialmente teria valor aproximado de US$ 24 milhões. A diferença entre o montante planejado e o efetivamente transferido também deverá ser esclarecida.
FLÁVIO RECONHECE NEGOCIAÇÃO, MAS NEGA VANTAGEM
Flávio Bolsonaro reconheceu que participou de uma negociação privada relacionada ao projeto. Ele nega ter recebido vantagem, prestado contrapartida política ou utilizado o cargo para beneficiar o Banco Master.
O senador também afirmou que encerrou a relação depois de identificar problemas ou divergências. Essa versão precisará ser confrontada com contratos, mensagens, datas das transferências e eventual participação de intermediários.
Investigação não equivale a denúncia ou condenação. Flávio possui direito à presunção de inocência, ao acesso aos elementos do inquérito e à apresentação de sua defesa.
EMPRESAS APRESENTAM VERSÕES DIFERENTES SOBRE OS RECURSOS
A produtora GOUP afirma que não recebeu valores do Banco Master. Já a empresa Entre, juridicamente distinta, reconheceu a existência de relação contratual e o recebimento de recursos.
A diferença entre as empresas é importante. Não é correto atribuir automaticamente a uma pessoa jurídica pagamentos reconhecidos por outra, ainda que ambas apareçam relacionadas ao mesmo ambiente negocial ou projeto.
A Polícia Federal deverá esclarecer qual empresa assinou contratos, qual recebeu os valores, como os recursos foram contabilizados e quem possuía controle sobre a estrutura sediada nos Estados Unidos.
MARINHO NEGOU QUE VIAGEM TIVESSE OBJETIVO DE ABAFAR O CASO
Durante a entrevista, Rogério Marinho negou que uma viagem relacionada a Donald Trump tivesse sido organizada para retirar o caso do noticiário. Segundo ele, o convite era anterior à divulgação das informações sobre o Banco Master e o projeto Dark Horse.
A proximidade entre os acontecimentos gerou especulação política, mas não comprova que a agenda internacional tenha sido montada para ocultar a controvérsia. Para sustentar essa acusação seria necessário demonstrar uma ação coordenada com esse objetivo.
Isso não impede a cobrança por esclarecimentos. A melhor maneira de afastar suspeitas é cumprir a prestação de contas prometida, com divulgação de documentos compatível com o sigilo legal do inquérito.
MARINHO TAMBÉM CRITICOU REUNIÃO DE LULA COM VORCARO
Ao defender Flávio, Marinho acusou politicamente o presidente Lula de possível advocacia administrativa por uma reunião fora da agenda oficial com Daniel Vorcaro. A declaração constitui acusação do senador e não comprovação de crime.
O Palácio do Planalto afirma que o encontro teve caráter técnico e nega qualquer interferência para beneficiar o empresário ou o Banco Master. Até o momento, a simples realização da reunião não demonstra prática de advocacia administrativa.
As circunstâncias do encontro, seus participantes e os assuntos discutidos podem ser fiscalizados politicamente. Entretanto, transformar uma reunião não divulgada em prova automática de crime violaria a mesma cautela exigida no caso de Flávio.
TRANSPARÊNCIA PRECISA VALER PARA FLÁVIO E PARA LULA
O caso expõe um teste de coerência para governo e oposição. Aliados de Lula cobram explicações de Flávio sobre contratos privados e transferências internacionais. Aliados de Flávio questionam reuniões reservadas do presidente com empresários ligados a instituições financeiras.
As duas situações exigem apuração baseada em documentos. Nem a relação política com o Planalto comprova favorecimento, nem a participação em negociação privada demonstra recebimento de vantagem indevida.
A régua deve ser uniforme: contratos, agendas, pagamentos, beneficiários e possíveis contrapartidas precisam ser examinados independentemente da posição política dos envolvidos.
PROMESSA DE PRESTAÇÃO DE CONTAS AINDA PRECISA SER CUMPRIDA
Para o Editorial Central, Rogério Marinho tinha direito de defender Flávio e contestar especulações, mas a frase de que não havia “nada a ser abafado” não encerrou a controvérsia. A abertura posterior do inquérito elevou o nível de escrutínio e tornou a transparência ainda mais necessária.
Flávio não pode ser tratado como culpado antes da conclusão das investigações. Ao mesmo tempo, sua condição de candidato e figura central da direita impõe o dever político de explicar uma negociação internacional que envolvia valores milionários.
Se os recursos tiveram origem regular, destinação empresarial e nenhuma contrapartida política, os documentos poderão demonstrar isso. Se surgirem inconsistências, deverão ser investigadas sem blindagem. O mesmo princípio deve ser aplicado a Lula, ao Banco Master e a todos os envolvidos.

