RATINHO DIZ O QUE MILHÕES PENSAM, E O BRASIL EXPLODE: A GUERRA ENTRE UM APRESENTADOR E A NOVA PRESIDENTE DA COMISSÃO DA MULHER
Após criticar a eleição de Erika Hilton para presidir a Comissão da Mulher na Câmara, Ratinho é processado, o SBT é invadido por militantes e o MPF entra em campo — mas o apresentador se recusa a recuar e acende um debat
Em apenas 72 horas, uma fala ao vivo de um apresentador de televisão se transformou em um dos maiores incêndios políticos e jurídicos de 2026. O apresentador Carlos Massa, o Ratinho, do SBT, questionou no ar a eleição da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. O resultado? Um processo bilionário, uma invasão à sede da emissora, uma investigação no Ministério Público Federal, um pedido de suspensão do programa pelo governo e uma polarização tão violenta nas redes sociais que já supera 5 milhões de interações. O Brasil, mais uma vez, parou.
O ESTOPIM: A VOTAÇÃO QUE ACENDEU O FOGO
Na quarta-feira, dia 11 de março de 2026, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, colegiado instalado naquela mesma data. A parlamentar recebeu 11 votos favoráveis e 10 votos em branco, tornando-se a primeira mulher trans a presidir a comissão.
A eleição, porém, não foi tranquila. No primeiro turno, a chapa de Erika Hilton obteve apenas 10 votos favoráveis contra 12 votos em branco — o que levou à rejeição da candidatura naquele momento. Como os votos em branco não atingiram a maioria absoluta de 13, a então presidente Célia Xakriabá (PSOL-MG) abriu um segundo turno, no qual bastaria maioria simples.
A oposição se manifestou com veemência ainda dentro do plenário. A deputada Clarissa Tércio (PP-PE) afirmou que a presidência da comissão deveria ser ocupada por uma "mulher de fato", declarando que a escolha de Erika Hilton representaria um retrocesso para a pauta feminina e uma afronta aos valores conservadores. A deputada Chris Tonietto (PL-RJ) também se posicionou, dizendo que "não podemos concordar com a entrega desta comissão, que deveria zelar pela dignidade da mulher, da vida e da família, a uma pauta que desvirtua a própria essência feminina".
A FALA QUE PAROU O PAÍS: O QUE RATINHO DISSE AO VIVO
Na noite daquele mesmo dia 11, o apresentador Ratinho, de 70 anos, comentou o ocorrido em seu programa no SBT. Ao comentar a eleição da parlamentar, questionou o fato de a comissão ser liderada por uma mulher trans, declarando: "Não achei isso justo. Tantas mulheres, por que vai dar para uma mulher trans? A Erika Hilton não é mulher, ela é trans." Em seguida, foi ainda mais direto: "Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias." O apresentador ainda tentou amenizar, afirmando que não teria "nada contra" a deputada, chegando a elogiá-la: "Ela só fala bem, mas não tenho nada contra ela. Ela é boa de prosa."
O que Ratinho talvez não tivesse calculado é que o Brasil das redes sociais já estava pronto para o confronto.
O CONTRA-ATAQUE JURÍDICO: PROCESSOS, MPF E PEDIDO DE PRISÃO
A resposta de Erika Hilton veio rápida e com força total. A deputada afirmou que entrou com um processo contra Ratinho, declarando publicamente: "Sei que, pela audiência irrisória de seu programa, que até onde sei não agrada nem suas chefes no SBT, lhe resta apelar à violência. Porque o que o apresentador cometeu foi uma violência, um ataque, e não foi só contra mim."
A parlamentar apresentou representação ao Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância do Ministério Público de São Paulo, pedindo a abertura de investigação criminal e a responsabilização do comunicador pelas falas exibidas em rede nacional, solicitando ainda a prisão de Ratinho. Caso condenado, a pena pode chegar a 6 anos.
A ofensiva não parou aí. O Ministério Público Federal acatou a denúncia apresentada pela deputada, pedindo indenização de R$ 10 milhões em danos coletivos à população trans e travesti, além da retirada do programa do ar. E para pressionar ainda mais o governo, Erika Hilton pediu ao Ministério das Comunicações a suspensão do Programa do Ratinho por 30 dias, e o ministério confirmou que recebeu a representação administrativa, que "será analisada pela equipe técnica da Secretaria de Radiodifusão".
O SBT NO MEIO DO FOGO: A EMISSORA QUE ABANDONOU SEU APRESENTADOR
Enquanto o incêndio se alastrava, o SBT tomou uma posição que surpreendeu muitos: a emissora se distanciou publicamente de seu próprio apresentador. Em comunicado, a emissora declarou: "O SBT repudia qualquer tipo de discriminação e preconceito, que são o oposto dos princípios e valores da empresa. As declarações do apresentador Ratinho, expressadas ao vivo ontem em seu programa, não representam a opinião da emissora e estão sendo analisadas pela direção da empresa."
No entanto, quando pressionado sobre a permanência de Ratinho no canal, o SBT cedeu à pressão econômica. A assessoria da emissora afirmou que "Ratinho é um dos principais apresentadores e parceiros do SBT" e que "o assunto foi tratado internamente com todos os envolvidos no episódio e já solucionado". Em outras palavras: repudiou a fala, mas manteve o apresentador. Uma decisão que não agradou a ninguém.
A MILITÂNCIA VAI ÀS RUAS: O MTST OCUPA O SBT
O caso saiu da tela e ganhou as ruas. Militantes do MTST realizaram um protesto em frente à sede do SBT, em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, exibindo cartazes e faixas contra o apresentador. Os manifestantes gritaram durante o ato: "Não é Sistema Brasileiro de Televisão, é Sistema Brasileiro Transfóbico."
Em nota, o MTST afirmou que a polêmica com Ratinho não se trataria de caso isolado, alegando que o apresentador carregaria um "histórico gravíssimo" que incluiria "condenação por trabalho análogo à escravidão em sua fazenda, falas racistas contra colega de trabalho e quase R$ 1 milhão recebidos para elogiar Bolsonaro". Essas alegações do MTST não foram verificadas de forma independente por esta redação, portanto registramos apenas o que o movimento afirmou publicamente.
Ao final do protesto, o MTST anunciou ter saído com reunião marcada para a quarta-feira seguinte, às 10h, com a emissora e a equipe de Erika Hilton.
RATINHO REAGE: "CRÍTICA POLÍTICA NÃO É PRECONCEITO. É JORNALISMO"
Diante de todo esse cenário, Ratinho não recuou. Na sexta-feira, dia 13 de março, o apresentador se manifestou em suas redes sociais com uma mensagem direta: "Eu defendo a população trans, mas defendo também o direito de questionar quem governa. Crítica política não é preconceito. É jornalismo, e eu não vou ficar em silêncio." Mais do que isso, convocou outros profissionais a também se posicionarem, declarando: "Convido jornalistas, comentaristas e apresentadores: falem, publiquem. Não fiquem em silêncio. Porque o silêncio é conivência."
Ratinho voltou a afirmar que não via Erika Hilton como mulher: "Eu não desrespeitei a deputada Erika Hilton em nenhum momento. Considero, inclusive, que ela é uma boa deputada. O que eu quis dizer é que Érika não é uma mulher mesmo. Sou contra uma mulher trans ser representante das mulheres." E foi além: ameaçou processar quem o chamasse de transfóbico, afirmando: "Em nenhum momento falei mal de trans. Transfobia é você tratar mal o outro. Vou processar todos que me chamarem de transfóbico."
O IMPACTO NAS REDES SOCIAIS: 5 MILHÕES DE INTERAÇÕES EM HORAS
O alcance da polêmica foi devastador em termos de engajamento digital. Levantamento da Nexus — Pesquisa e Inteligência de Dados aponta que a desavença entre Erika Hilton e Ratinho gerou mais de 131,4 mil menções no X, Facebook e Instagram apenas entre a meia-noite e as 9h da sexta-feira, com engajamento nas três plataformas já ultrapassando 5,1 milhões de interações, incluindo reações, comentários e compartilhamentos. No período analisado, "Ratinho" chegou ao 5º lugar nos Trending Topics do Brasil, enquanto "Érika Hilton" aparecia na 12ª posição.
O QUE DIZ A LEI: RATINHO PODE SER PRESO?
A questão jurídica é central para entender o que pode vir a seguir. Yuri Carneiro Coelho, doutor em Direito e professor de Direito Penal, explicou à CNN Brasil que "a injúria homofóbica ou transfóbica se caracteriza pela utilização de palavras, escritos ou gestos preconceituosos que ofendem a honra subjetiva do ofendido, independente de sua orientação sexual, sendo este o entendimento do STJ."
A advogada Patrícia Piasecki Custódio, mestre em Direitos Humanos e professora da PUC-PR, avaliou que o caso mais provável é que as declarações de Ratinho sejam enquadradas no crime de injúria racial. Ela destacou ainda que o uso de meio de comunicação de grande alcance agrava a pena: "Quanto maior o meio de propagação, mais rigorosa deve ser a pena com relação ao autor."
O CONTEXTO QUE A MÍDIA IGNORA: ERIKA HILTON E SUAS POLÊMICAS ANTERIORES
O que a narrativa dominante tende a omitir é que a eleição de Erika Hilton não foi um consenso sequer dentro da Câmara. A votação foi apertada e marcada por forte resistência. Hilton tem um histórico de embates judiciais com mulheres que questionaram publicamente o fato de uma pessoa trans assumir cargos destinados à defesa das pautas femininas. Um dos casos mais conhecidos envolveu a feminista Isabella Cepa, que foi alvo de inquérito após questionar nas redes sociais a identidade de gênero da deputada — inquérito que foi posteriormente arquivado.
Para além do debate sobre identidade, o pano de fundo é político: em seu discurso de posse, Erika Hilton defendeu, entre outras medidas, o combate ao conteúdo "red pill" na internet e a regulação de plataformas digitais no enfrentamento à misoginia — pautas que dividem profundamente a opinião pública e que tendem a ser vistas com desconfiança por setores mais conservadores da sociedade.
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