PASTOR TRAIU A DIREITA E AGORA A PRÓPRIA IGREJA O CASSSA: A QUEDA DE OTONI DE PAULA
De ferrenho opositor de Lula a hóspede do Planalto, o deputado evangélico acumulou contradições até perder o que lhe restava: a autoridade pastoral que o projetou politicamente.
O deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), que durante anos foi um dos rostos mais conhecidos da bancada evangélica conservadora na Câmara dos Deputados, teve sua autoridade pastoral formalmente cassada pelo Ministério de Avivamento Apostólico do Caminho (MAAC), denominação onde atuava como pastor, em decisão divulgada no domingo, 15 de março de 2026. A circular ministerial, assinada pelo bispo Léo Assis, determina que o parlamentar está impedido de assumir púlpitos, ministrar a palavra ou exercer qualquer função pastoral dentro da instituição. O estopim foi sua atuação na eleição da deputada trans Erika Hilton (PSOL-SP) para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados — mas o dossiê político de traições à direita é muito mais longo.
QUEM ERA OTONI DE PAULA ANTES DA VIRADA
Os registros do plenário da Câmara dos Deputados revelam um parlamentar que não poupava palavras contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT. Conforme discurso proferido por Otoni de Paula no plenário da Câmara em 25 de agosto de 2021, transcrito pelo portal da própria Casa, o então deputado chegou a afirmar publicamente que Lula era "ladrão" e "bandido" e que seria "guiado por Zé Pilintra das Almas". Em maio do mesmo ano, em discurso registrado pelo portal da Câmara, Otoni acusou Lula de "zombar das igrejas", de financiar "atividades nas paradas do orgulho LGBT" e de planejar "colocar pastores e padres no seu lugar", conclamando os cristãos a não votarem no petista. Em 2022, em novo discurso no plenário, o parlamentar chegou a chamar Lula de "profeta do capeta" em sessão ordinária da Câmara. Essa era a voz que os eleitores evangélicos conservadores conheciam — e que elegeram.

A VIRADA: ORAÇÕES NO PLANALTO E ELOGIOS AO GOVERNO PT
A ruptura começou a se tornar pública em 2024, quando Otoni passou a suavizar o discurso e ensaiou aproximações com o Palácio do Planalto. O ápice veio em dezembro de 2025, quando o deputado compareceu ao Planalto para uma oração pública pelo presidente Lula, em cerimônia ligada ao decreto que reconheceu a cultura gospel como manifestação cultural nacional. Conforme o próprio Otoni reconheceu em discurso no plenário da Câmara em 8 de julho de 2025, transcrito pelo portal da Casa, ele esteve no Palácio do Planalto para "cumprir o papel pastoral orando pelo Presidente Lula" e afirmou que faria isso "todas as vezes que ele necessitasse". Em fevereiro de 2026, o deputado foi além: defendeu Lula publicamente na GloboNews, afirmando que o presidente havia sido o que "mais apoiou a comunidade evangélica". Para a base que o elegeu — a mesma que ouviu os discursos inflamados de 2021 e 2022 — a contradição era impossível de ignorar.

O VOTO QUE SELOU O DESTINO PASTORAL
A atuação de Otoni na eleição de Erika Hilton para a presidência da comissão foi o elemento final. Ao não aderir ao boicote articulado por parlamentares conservadores, o deputado contribuiu decisivamente para uma vitória que representou um choque simbólico profundo para o eleitorado evangélico. Para a liderança da MAAC, a sequência de gestos — do Planalto à comissão — configurou uma conduta incompatível com o exercício da autoridade espiritual. A circular do bispo Léo Assis não deixa margem para interpretação: Otoni de Paula deixou de ser reconhecido como pastor pela denominação que o projetou.

O CONTRASTE QUE CONDENA
O arquivo público da Câmara dos Deputados, disponível no portal da instituição, preserva cada discurso. Em 2021, Otoni bradava que "a Igreja não apoia Lula porque ele sempre apoiou a Marcha das Vadias" e que Lula "governaria com Zé Pilintra das Almas". Em 2025, o mesmo parlamentar orava de mãos dadas com Lula no Palácio do Planalto. Em 2026, votava de forma a beneficiar a deputada que simboliza exatamente a pauta que ele combatia no púlpito. O contraste não precisa de comentário editorial — os próprios registros oficiais o fazem.
O QUE PODE ACONTECER A SEGUIR
Com as eleições de 2026 se aproximando, Otoni de Paula enfrenta agora o pior dos cenários: sem o prestígio pastoral que o diferenciava dentro da bancada evangélica e sem a credibilidade conservadora que justificava seu mandato perante a base eleitoral. Até o momento não há confirmação oficial de resposta pública do parlamentar à circular da MAAC. A pergunta que paira sobre sua carreira política é objetiva: sem o púlpito e sem a direita, para qual eleitorado Otoni de Paula candidatará em 2026?
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