O cenário político na Argentina começou a desenhar movimentações importantes para a sucessão presidencial de 2027. O ex-presidente Mauricio Macri realizou na última quinta-feira um encontro estratégico com parlamentares do Proposta Republicana (PRO), partido fundado por ele, na cidade de Buenos Aires. Embora não tenha assumido publicamente o desejo de se candidatar para disputar a Casa Rosada contra o atual mandatario liberal Javier Milei, os aliados mais próximos já trabalham ativamente nos bastidores para viabilizar o projeto. A iniciativa expõe um racha na direita argentina, em um momento onde parte expressiva das bases conservadoras e liberais do país apoia as reformas estruturais conduzidas pela atual gestão.

A REJEIÇÃO QUE TRAVA OS PLANOS DE RETORNO

Para convencer o eleitorado, qualquer projeto político precisa do amparo da realidade, e os números recentes trazem alertas severos para o líder do PRO. Uma pesquisa nacional realizada pelo instituto Atlas Intel em parceria com a Bloomberg, coletada entre os dias 21 e 25 de maio de 2026, apontou que Mauricio Macri acumula 69% de imagem negativa entre os entrevistados, obtendo apenas 22% de avaliação positiva. O desgaste contrasta diretamente com os índices das lideranças que ele pretende enfrentar ou aglutinar. No mesmo levantamento, o atual mandatário Javier Milei registra 38% de imagem positiva, enquanto a ex-presidente peronista Cristina Kirchner, mesmo condenada por corrupção e cumprindo prisão domiciliar, mantém 39% de aprovação popular.

O DESIDRATAMENTO DO PRO E A MIGRAÇÃO PARA MILEI

A maior contradição desse movimento de bastidores reside no esvaziamento prático do próprio partido de Macri. Nos últimos meses, uma parcela significativa de legisladores e quadros técnicos do PRO optou por migrar ou declarar apoio irrestrito ao governo oficialista da coalizão La Libertad Avanza. A leitura das bancadas de direita aponta que o eleitorado conservador argentino prefere a firmeza e a velocidade das desregulamentações econômicas aplicadas por Milei à postura considerada moderada que marcou o final da gestão de Macri em 2019. Sem o controle unificado da própria legenda e com figuras de proeminência defendendo a fusão de forças com o governo atual, a tentativa de construir uma terceira via de direita corre o risco de isolar o ex-presidente.

O QUE O ELEITOR CONSERVADOR PRECISA ENTENDER

A tentativa de rivalizar com Javier Milei acende um sinal de alerta entre defensores do livre mercado e críticos do socialismo na América Latina. Historicamente, a divisão das forças de direita abriu espaço para o retorno do peronismo e do populismo de esquerda na Argentina, exatamente como ocorreu em 2019 com a eleição de Alberto Fernández. A força dos fatos econômicos — como a desaceleração da inflação que começa a consolidar o apoio à gestão liberal atual — sugere que o eleitorado de direita busca estabilidade e reformas profundas, rejeitando projetos personalistas que possam fragmentar o voto conservador. Resta saber se o PRO insistirá em uma candidatura própria ou se o pragmatismo prevalecerá para evitar o fortalecimento da esquerda nas urnas.