SOB PRESSÃO DO ESCUDO DAS AMÉRICAS, LULA CORRE E FECHA ACORDO COM BOLÍVIA CONTRA O CRIME ORGANIZADO
Com Trump prestes a classificar PCC e CV como terroristas e vizinhos alinhando-se a Washington, Lula assina acordo anticrime com presidente boliviano que já usa a palavra "terrorismo" para o narcotráfico.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou nesta segunda-feira, 16 de março de 2026, um acordo formal de cooperação no combate ao crime organizado transnacional com o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz Pereira (Partido Democrata Cristão), durante visita oficial ao Palácio do Planalto, em Brasília. O timing do acordo não é casual: o pacto ocorre em meio à pressão crescente do governo de Donald Trump, que segundo reportagem do UOL já decidiu classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras — uma designação que, na avaliação do próprio Planalto, poderia abrir caminho para ações militares dos EUA em território brasileiro.
O QUE DIZ O ACORDO E O QUE ELE REVELA
O pacto firmado entre Brasil e Bolívia abrange tráfico de pessoas, contrabando de migrantes, narcotráfico, lavagem de dinheiro, mineração ilegal, tráfico de armas, crimes cibernéticos, crimes ambientais e roubo de veículos. O principal avanço previsto é o aprofundamento da cooperação, com troca de informações de inteligência em tempo real sobre rotas, suspeitos e modus operandi de organizações criminosas. Conforme nota oficial do Ministério das Relações Exteriores publicada em 16 de março de 2026, os temas tratados incluíram cooperação na área de energia, integração física, combate a ilícitos transnacionais, comércio e investimentos. O que o acordo não diz — mas o contexto revela — é que Lula assina o documento justamente quando a pressão do Escudo das Américas e a iminente classificação do PCC e do CV como grupos terroristas pelos EUA tornam a inação diplomaticamente insustentável.

O TIMING: CERCADO PELA DIREITA REGIONAL
A análise do contexto geopolítico é indissociável do acordo. No dia 7 de março de 2026, Trump reuniu 12 líderes latino-americanos de direita em uma cúpula voltada ao combate ao narcotráfico. O Brasil não participou do encontro e nem foi convidado. O presidente da Argentina, Javier Milei, já classificou o PCC e o CV como organizações terroristas em território argentino. O Paraguai adotou medida semelhante. O presidente José Antonio Kast, que assumiu o Chile em 11 de março de 2026, é signatário do Escudo das Américas. E o próprio Rodrigo Paz, presidente da Bolívia que veio assinar o acordo com Lula, participou do lançamento da coalizão de Trump. Apesar da boa relação com Brasília, o boliviano circula ativamente nas agendas da direita regional. O Brasil está, na prática, cercado por governos alinhados a Washington numa frente anticrime que o exclui.

O QUE PAZ DISSE NO ITAMARATY: A PALAVRA QUE LULA EVITA
O momento mais revelador da visita ocorreu no almoço no Palácio do Itamaraty, quando jornalistas questionaram Paz sobre a classificação do PCC e do CV como terroristas pelos EUA. O presidente da Bolívia não confirmou sua posição oficial, mas afirmou que o narcotraficante Sebastián Marset — aliado do PCC preso pela Bolívia na sexta-feira anterior — gerava "terrorismo, instabilidade e submissão" no país. Paz declarou ainda que "a classificação de terrorismo pode ter diferentes interpretações" e que, para a Bolívia, o que foi feito na sexta-feira anterior "é central em nossa visão contra o crime organizado, contra as máfias e também contra o terrorismo, porque são parte de um ciclo de terrorismo". O presidente boliviano foi além e afirmou, com clareza, que "a Bolívia exporta ilícitos, mas o Brasil nos exporta violência" — uma acusação direta feita ao aliado que acabara de assinar um acordo com ele horas antes.

A PRESSÃO DE TRUMP E O QUE O PLANALTO TEME
O governo Trump propôs que o Brasil receba em prisões brasileiras os estrangeiros capturados nos EUA, tal como faz El Salvador em sua penitenciária de alta segurança Cecot. Os EUA também querem que o Brasil apresente um plano para acabar com o PCC, o CV, o Hezbollah e as organizações criminosas chinesas em solo brasileiro. A possível designação das facções como organizações terroristas por Trump teria consequências econômicas, criaria atritos nas relações com os Estados Unidos e, em última instância, deixaria o Brasil exposto a ações militares americanas. Fontes ligadas ao governo americano indicam que a proposta estaria sendo liderada por Marco Rubio dentro da administração de Trump e já estaria em estágio avançado, com expectativa de encaminhamento ao Congresso nos próximos dias. Lula tenta frear a decisão argumentando que EUA e Brasil já cooperam — mas a lista de países que adotaram a classificação terrorista ao redor do Brasil cresce a cada semana.
O QUE PODE ACONTECER A SEGUIR
A principal preocupação do governo Lula não está relacionada às organizações criminosas em si, mas aos efeitos jurídicos, diplomáticos e institucionais que uma designação dessa natureza poderia desencadear. O encontro entre Lula e Trump, inicialmente previsto para março, foi adiado para abril — e a classificação do PCC e do CV como terroristas pode ser anunciada antes mesmo do aperto de mãos entre os dois presidentes. Se isso ocorrer, o acordo assinado hoje com a Bolívia — um país que prende aliados do PCC, usa a palavra "terrorismo" para descrevê-los e integra o Escudo das Américas de Trump — será lembrado como o momento em que Lula tentou correr mais rápido do que a pressão. A questão que o Planalto ainda não respondeu é objetiva: até quando o Brasil será o único grande país da América do Sul a tratar o PCC e o CV como simples organizações criminosas, enquanto todos os seus vizinhos já os chamam pelo nome que Trump quer impor?
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