A crise no Paraguai, desencadeada pelo colapso do Ueno Bank e seguida pela renúncia do presidente Santiago Peña, ameaça se tornar um obstáculo às negociações bilaterais com o Brasil e à integração regional. O cenário pode congelar discussões estratégicas, complicar decisões sobre a usina de Itaipu e abalar a confiança de investidores, segundo análise do Portal R7.

O Ueno Bank, instituição digital que chegou a ter cerca de 3 milhões de clientes e a administrar cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos — incluindo fundos da previdência e da própria Itaipu —, teve as atividades suspensas pelo Banco Central paraguaio após identificação de índice de solvência abaixo da metade do mínimo exigido. Peña, que manteve participação acionária no grupo controlador até março de 2025, enfrentou acusações de conflito de interesses e viu a base do Partido Colorado se afastar.

Em um primeiro momento, a tendência apontada por especialistas é de esfriamento nas relações entre os dois países. O coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR, João Alfredo Lopes Nyegray, observa que a instabilidade paraguaia pode afetar a coordenação no Mercosul, que avança em acordos comerciais, inclusive com a União Europeia. Uma crise em um dos membros dificulta posições comuns e cria incertezas para parceiros externos.

Para o Brasil, o ponto central é a capacidade de manter diálogo institucional com o novo governo paraguaio em temas sensíveis: revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu, comércio bilateral, infraestrutura de fronteira e integração energética. Compromissos já firmados permanecem válidos, mas novas decisões e implementação de acordos podem ser retardadas pela transição política.

Nyegray avalia que não se espera mudança radical na política externa paraguaia, mas sim alteração de prioridades e estilo de negociação. O mais importante para o lado brasileiro será preservar os canais técnicos e diplomáticos, independentemente das disputas internas no país vizinho. A crise expõe os riscos de dependência excessiva de interlocutores cuja base política e econômica se mostra frágil.

A binacional Itaipu, que transferiu centenas de milhões de dólares ao setor público paraguaio em 2026, mantinha recursos no Ueno. A indefinição sobre a tarifa e a venda do excedente de energia ganha mais um fator de atraso. Enquanto o Paraguai reorganiza sua liderança após a saída de Peña, o Brasil precisa assegurar que interesses nacionais em energia e comércio não fiquem reféns da instabilidade regional.